Me chamo Paulo Henrique Macedo, tenho 41 anos, e há 17 anos sou o homem que as pessoas tanto amam quanto odeiam. Sou técnico de manutenção de máquinas caça-níquel em São Paulo. Sim, aquele cara de macacão cinza que aparece quando uma máquina trava justamente no momento em que você estava prestes a ganhar um jackpot. Aquele que você tem certeza que manipula as máquinas para nunca pagarem (spoiler: não manipulo, mesmo que meu chefe já tenha insinuado que deveria).
Antes que você pergunte – como todos fazem quando descobrem minha profissão durante um churrasco de domingo – não, eu não sei como fazer as máquinas pagarem mais, e sim, já perdi R$13.785,00 jogando nelas. A ironia não me escapa: conserto as mesmas máquinas que quase destruíram meu casamento com Luciana em 2019, quando ela descobriu que eu havia usado o dinheiro que economizávamos para a entrada do nosso apartamento em Perdizes em longas madrugadas no subsolo de um posto de gasolina na Marginal Tietê.
Quando minha sogra Dona Terezinha me pergunta pela milésima vez “mas afinal o que é essa tal de caça-níquel que você mexe?”, geralmente respondo assim: “É como um relacionamento complicado, tem momentos de alegria intensa seguidos por longos períodos de decepção e arrependimento.”
Mas tecnicamente falando (e tenho que ser técnico – afinal, formas diferentes de explicar meu trabalho para sonegar imposto me levaram a três intimações da Receita Federal), uma máquina caça-níquel é fundamentalmente um jogo de azar que opera com um sistema de roletas giratórias. O jogador insere dinheiro – ou como prefiro chamar, “doações voluntárias para o lucro do cassino” – e aperta um botão, ou nas mais antigas, puxa uma alavanca. Os cilindros giram, exibindo vários símbolos, e param em combinações aleatórias. Se a combinação corresponder a uma das linhas de pagamento, o jogador ganha.
Pelo menos em teoria. Na prática, em meus 17 anos abrindo as entranhas metálicas dessas máquinas, testemunhei muito mais lágrimas do que comemorações.
Eu estava na faculdade de Engenharia Elétrica na USP quando consegui meu primeiro estágio consertando caça-níqueis. Era 2008, época em que essas máquinas ainda operavam em territórios nebulosos da legalidade brasileira, como aquele bingo “beneficente” no Tatuapé onde meu cunhado Rogério gastou o dinheiro que deveria ter usado para pagar o enxoval do filho dele.
Naquela época, abri minha primeira máquina caça-níquel com a reverência de um estudante de medicina em sua primeira aula de anatomia. O que descobri dentro dela mudou minha compreensão sobre probabilidade, psicologia e por que meu pai havia perdido nossa casa em Ribeirão Preto quando eu tinha 9 anos.
O funcionamento básico é simples (embora suas consequências sejam complexas como explicar para sua esposa por que você precisa trabalhar justamente no aniversário de casamento):
Eu comecei minha carreira consertando máquinas em lugares que prefiro não mencionar por razões que meu advogado, Dr. Cláudio, insiste que não devem ser documentadas por escrito. Hoje, porém, o cenário no Brasil mudou completamente.
Em 2016, estava numa churrascaria em Campinas comemorando o aniversário do meu sogro quando recebi uma ligação urgente para consertar uma máquina que havia “misteriosamente” parado de pagar após um jackpot de R$17.500. Expliquei sobre a regulamentação de jogos no Brasil, a proibição e as exceções, enquanto dirigia a 130km/h na Bandeirantes. Evidentemente, não era uma situação ideal para uma aula sobre legislação brasileira, mas acabei desenvolvendo uma explicação concisa:
No Brasil, as máquinas caça-níquel físicas vivem em um limbo legal desde o fechamento dos cassinos em 1946. Em 2004, assistimos à famosa “CPI dos Bingos”, que resultou no fechamento de casas de bingo e salas de máquinas em todo o país. Eu me lembro desse dia vividamente – estava instalando uma nova máquina no “Espaço de Entretenimento Familiar” do Seu Adalberto quando a Polícia Federal entrou. Passei a noite explicando que eu era apenas o técnico, não o dono. E que a chave de fenda na minha mão era para consertar uma cadeira, não a máquina. Ninguém acreditou.
Hoje, as máquinas que conserto são principalmente para exportação ou para cassinos online licenciados em outros países, mas operando servidores que atendem jogadores brasileiros. Sim, o mesmo brasileiro que joga pelo celular enquanto espera o ônibus na Avenida Paulista às 6h da manhã pode estar jogando em uma máquina virtual que eu ajudei a programar.
Minha tia Zulmira, por exemplo, aos 68 anos, tem mais perícia em jogos de caça-níquel online do que tem em usar o microondas. Semana passada, ela me ligou às 3h27 da madrugada para reclamar que o “Fortune Tiger não estava pagando direito”. Tive que explicar que eu conserto o hardware e a programação, não controlo a sorte dela nem a matemática básica de probabilidade.
Em 17 anos abrindo as entranhas das mais diversas máquinas caça-níquel, desenvolvi minha própria classificação – uma que meu chefe Fernando se recusa a adotar oficialmente, apesar de todos no depósito da empresa em Guarulhos usarem:
Quase duas décadas trabalhando com máquinas caça-níquel me transformaram no que meus amigos chamam de “o chato das probabilidades”. Nos churrascados de domingo, quando alguém menciona que está pensando em jogar, recito automaticamente minha lista de conselhos – a mesma que ignorei sistematicamente durante anos:
Em 2024, a maior parte do meu trabalho envolve programação e manutenção de servidores para máquinas caça-níquel online. É como se as máquinas que costumava consertar em bares escondidos no interior de São Paulo tivessem evoluído, se reproduzido e agora vivessem nos bolsos das pessoas através de seus smartphones.
Às vezes, olho para trás e me pergunto se contribuí para criar um monstro. No mês passado, meu próprio filho Pedro, de 15 anos, me perguntou como as máquinas funcionavam enquanto jogava uma versão “gratuita” no celular (aquelas que oferecem compras dentro do aplicativo que são tão “opcionais” quanto o pagamento do IPVA).
As versões online são brilhantes – em todos os sentidos. São visualmente impressionantes, com animações que fariam o Steven Spielberg dos anos 80 ficar com inveja. Sons imersivos que fazem você sentir como se estivesse em Las Vegas, mesmo estando no banheiro da sua casa em Itaquera às 4 da manhã, escondido para sua esposa não descobrir que você está jogando novamente.
Mas a verdadeira revolução não foi visual, foi a conveniência. Hoje, para perder todo o seu dinheiro, você não precisa mais dirigir até aquele bingo suspeito na Zona Leste ou pegar um avião para Montevidéu. Pode fazer isso no conforto do seu lar, no trabalho (não recomendo, perdi um emprego assim em 2012), ou até mesmo durante o jantar de Natal enquanto a sua sogra recita pela décima vez como o peru ficou mais suculento que o do ano passado.
Esta é a pergunta que o Senhor Carlos me fez enquanto eu consertava uma máquina no subsolo de um “clube recreativo” em Santos. A resposta é complexa: tecnicamente não, mas estatisticamente sim. As máquinas são projetadas para pagar menos do que recebem ao longo do tempo. É matemática básica aplicada a economia caseira: se o cassino pagasse mais do que recebesse, o dono não conseguiria manter seu BMW X6 nem pagar a mensalidade da escola bilíngue dos filhos.
Essa pergunta geralmente vem de pessoas como meu concunhado Maurício, que acha que descobriu um “sistema infalível” baseado na fase da lua e no número de vezes que a máquina foi jogada desde o último jackpot. A resposta realista é não. Em 17 anos, nunca conheci uma única pessoa que ganhe dinheiro consistentemente com caça-níqueis. Conheci, porém, dezenas que perderam casas, carros, relógios Rolex falsificados e até uma coleção impressionante de selos raros (história para outro dia).
Meu irmão André me fez essa pergunta depois de perder R$4.700 em um site de apostas com sede em Malta. A resposta é: depende. Os cassinos online licenciados são auditados e seus RNGs verificados, o que teoricamente deveria torná-los mais confiáveis. Na prática, porém, o resultado é o mesmo – a matemática favorece a casa. A diferença é que online você pode perder dinheiro muito mais rapidamente. Meu recorde pessoal foi perder R$900 em exatos 7 minutos e 42 segundos durante uma “pausa rápida” no banheiro durante o casamento da minha sobrinha.
Esta é a pergunta do milhão. Literalmente, já que é quanto alguns dos meus colegas técnicos sonham ganhar para revelar supostos “segredos”. A verdade? A única estratégia infalível foi resumida pelo meu antigo chefe Vanderlei: “A única forma de ganhar no caça-níquel é ser o dono da máquina.” É por isso que, em 2022, investi minhas economias em ações de empresas de jogos online em vez de jogar nas máquinas. Estou no lucro desde então – algo que nunca aconteceu em minhas tentativas como jogador.
Esta é a pergunta que o diretor da Receita Federal adoraria que eu respondesse com nomes e endereços completos. Legalmente falando, os brasileiros podem jogar em sites internacionais. Muitos desses sites são licenciados em jurisdições como Malta, Isle of Man ou Curaçao. Na prática, porém, a melhor resposta que posso dar (e que dei ao meu tio Gilberto depois que ele perdeu três meses de aposentadoria jogando) é: “O melhor lugar para jogar caça-níqueis é na sua imaginação, onde você sempre ganha e nunca perde dinheiro real.”
Depois de 17 anos consertando as máquinas que simultaneamente arruinaram e sustentaram minha vida, cheguei a uma conclusão filosófica profunda sobre os caça-níqueis: eles são como aquele tio inconveniente que aparece em todos os aniversários – você sabe que provavelmente vai se arrepender de interagir com ele, mas de alguma forma sempre acaba envolvido em suas histórias malucas.
Hoje, Luciana e eu temos um acordo: posso continuar consertando as máquinas, mas não posso mais jogar nelas. Como parte da minha reabilitação, cada vez que sinto vontade de jogar, deposito o valor que gastaria em uma poupança separada. No ano passado, essa “poupança da tentação” nos pagou uma viagem para Fortaleza, onde passamos uma semana inteira sem ver uma única máquina caça-níquel.
Bem, exceto por aquele aplicativo gratuito que baixei “só para passar o tempo” enquanto Luciana fazia compras. Mas isso é outra história…