Se existe uma lição que aprendi nos meus 36 anos de vida e 14 anos como gerente de TI em uma multinacional na Barra da Tijuca, é que nunca, jamais, subestime uma senhora de idade com tempo livre e um smartphone. Meu nome é Renato Gomes, carioca da gema, filho único de uma professora de matemática e um contador que sonhava em me ver jogando futebol profissionalmente – sonho que acabou quando descobri que tinha mais talento para consertar computadores do que para acertar gols. Mas esta história não é sobre mim, é sobre minha avó Clotilde, 82 anos, moradora de Vila Mimosa há mais de cinco décadas, e sua improvável trajetória como embaixadora dos caça-níqueis grátis em uma comunidade onde até então a tecnologia mais avançada era o televisor de 42 polegadas do Boteco do Zeca, que transmite jogos do Flamengo com aquele delay irritante de 30 segundos.
Tudo começou em novembro de 2024, quando decidi dar de presente para vovó um smartphone novo no seu aniversário. “Pra quê isso, menino? Eu só ligo e recebo ligação, não preciso dessa modernidade toda”, reclamou ela, ajustando os óculos de armação roxa que usa desde que me entendo por gente. Ignorei seus protestos e passei o domingo inteiro configurando o aparelho, baixando WhatsApp, Facebook e, num impulso que mudaria para sempre a dinâmica da Vila Mimosa, um aplicativo de caça-níqueis grátis que pensei que pudesse entretê-la nas noites de insônia que ela tanto reclamava.
Vovó Clotilde passou a vida inteira com medo de tecnologia. “Essas coisas modernas explodem quando menos se espera, Renatinho”, era o que ela dizia sempre que eu tentava convencê-la a usar um micro-ondas. Para a mulher que ainda guardava dinheiro dentro do colchão porque “banco é coisa de ladrão engravatado”, a ideia de jogar algo no celular parecia tão absurda quanto pedir comida japonesa – “peixe cru é isca, não comida”, segundo sua filosofia culinária.
Três dias depois, recebi uma ligação às 23h47. “Renatinho, que joguinho é esse que você colocou aqui? Tá aparecendo uma tal de Fortune Tiger e tem um tigre que pisca pra mim quando ganho. Isso é normal ou o bicho tá dando em cima de mim?” Foi meu primeiro indício de que algo extraordinário estava acontecendo. Expliquei que eram caça-níqueis grátis, jogos que simulavam as máquinas de cassino, mas sem envolver apostas reais.
O que eu não fazia ideia é que, enquanto eu dormia tranquilamente ao lado da minha esposa Amanda no nosso apartamento climatizado na Barra, Vovó Clotilde estava virando a madrugada descobrindo como funcionavam os multiplicadores de apostas virtuais e acumulando uma fortuna fictícia que ela anotava meticulosamente num caderninho de receitas, logo abaixo da sua famosa fórmula de bolo de fubá com goiabada.
Na semana seguinte, quando fui visitá-la com minha tradicional marmita de domingo (feita por Amanda, já que meu talento culinário se limita a esquentar água para miojo), encontrei um cenário surreal. Vovó Clotilde estava sentada na sua poltrona preferida – aquela de estampa floral desbotada que ninguém tem permissão para sentar desde que vovô Arnaldo faleceu em 2012 – cercada por três senhoras do bingo da igreja, Dona Iracema, Dona Jurema e Dona Maristela, todas vidradas na pequena tela do smartphone enquanto minha avó explicava como funcionavam os caça-níqueis grátis:
Naquela tarde, sentado na cozinha enquanto comia o pudim de leite que vovó sempre guarda especialmente para mim (escondido atrás dos potes de geleia de mocotó que ninguém nunca come), testemunhei a fundação informal do que viria a se tornar um fenômeno local. À medida que mais senhoras chegavam – aparentemente o bingo dominical havia sido cancelado porque Seu Arnaldo, o marcador oficial, estava com “dor nas juntas devido à chuva que nem caiu” – Vovó Clotilde explicava as vantagens dos caça-níqueis grátis com a eloquência de uma apresentadora de televendas:
Três semanas depois da minha visita, recebi uma ligação no trabalho. Era Dona Iracema, vizinha de vovó, pedindo “suporte técnico urgente”. Preocupado com a possibilidade de algum problema sério com minha avó, corri para Vila Mimosa na hora do almoço, apenas para descobrir que a “emergência” era o tablet de Seu Januário, de 86 anos, que “travou bem na hora que ele ia bater seu recorde no jogo da roleta”.
O que encontrei foi ainda mais surpreendente que a situação anterior. A sala de vovó havia sido transformada em um verdadeiro centro de operações. Seis idosos, incluindo Seu Januário (que eu sempre achei que não enxergava bem o suficiente nem para ler o jornal), estavam espalhados entre sofás e cadeiras trazidas de outras casas, todos com dispositivos móveis nas mãos.
Dona Clotilde havia criado uma espécie de “guia de cassinos grátis” para seus amigos, escrito à mão em um caderno de caligrafia que mantinha desde a década de 70. A página principal, decorada com flores desenhadas nas margens, tinha o título “Onde Jogar Sem Gastar um Tostão (testado e aprovado pela Clotilde)”:
Durante minha visita improvisada, testemunhei um acalorado debate entre Seu Januário, ex-contador aposentado do Banco do Brasil, e Dona Maristela, ex-professora de português conhecida por corrigir a gramática de todos no bairro, inclusive do padre durante o sermão. O tema era quase filosófico: “Caça-níqueis grátis versus pagos: qual a graça de ganhar se não é de verdade?”
“Sem risco não há emoção verdadeira”, argumentava Seu Januário, que, segundo os rumores locais, havia perdido um Fusca em uma aposta de jogo do bicho nos anos 80. “Jogar com dinheiro de mentirinha é como tomar cerveja sem álcool: serve para quê?”
Dona Maristela, por outro lado, defendia ardorosamente os caça-níqueis grátis: “Na nossa idade, já arriscamos o suficiente na vida. Eu prefiro a diversão sem preocupação. Além disso, Januário, a última vez que você apostou dinheiro de verdade, ficou um mês comendo sopa de pacote porque a aposentadoria acabou antes do fim do mês.”
Vovó Clotilde, sempre diplomática, encerrou a discussão com sua sabedoria característica: “A graça dos caça-níqueis grátis é exatamente não perder dinheiro de verdade. Aos 82 anos, já perdi muita coisa na vida – marido, alguns dentes, a paciência com político e a capacidade de comer feijoada sem passar mal. Dinheiro é a única coisa que não quero mais perder.”
Durante o cafezinho servido pontualmente às 15h (preparado com aquele pó de café forte que vovó compra a granel no Mercado Municipal), observei como até Dona Cecília, a rígida professora de catecismo que costumava dizer que “jogos de azar são porta de entrada para o inferno”, estava completamente absorta em um caça-níquel grátis com tema de fazendinha. Perguntei o que havia naqueles jogos que conquistou até os mais resistentes:
Esta é a pergunta recorrente de vovó Clotilde, que ainda desliga o celular durante tempestades porque tem certeza que “raio é atraído por tecnologia”. “Não, vovó, o celular não vai explodir. E também não precisa desligar o wifi à noite porque ‘os hackers trabalham depois das 22h’, como a senhora acha.” Ela assente, mas sei que continua desligando tudo mesmo assim, tradição que mantém junto com cobrir os espelhos durante trovoadas.
A esperança eterna de Seu Januário, que apesar de defender apostas reais, secretamente prefere não arriscar sua aposentadoria. “Não, Seu Januário, os caça-níqueis grátis são apenas para diversão. O dinheiro é fictício, como a promessa do síndico de arrumar o elevador do prédio da senhora até o fim do mês.” O idoso sempre suspira, mas logo continua jogando com o mesmo entusiasmo.
A preocupação constante de Dona Cecília, que esconde o tablet embaixo da almofada quando ouve o portão da casa abrir. “Só se a senhora contar, Dona Cecília. E lembre-se, a senhora também dizia que televisão viciava, mas assistiu todas as temporadas de ‘Pantanal’ sem perder um capítulo.” Ela sempre ruboriza antes de voltar furtivamente ao seu jogo de fazendinha.
A dúvida prática de Seu Antônio, que insiste em jogar mesmo enxergando apenas vultos coloridos na tela. “Tem jogos com símbolos maiores, Seu Antônio. E também dá para aumentar tudo no celular. Mas talvez fosse bom a senhora comprar aqueles óculos de leitura na farmácia enquanto espera o SUS.” Ele nunca segue meu conselho, preferindo colar o nariz na tela e depois reclamar de dor de cabeça.
A dúvida teológica de Dona Maristela, que vai ao culto evangélico aos domingos, mas não perde o bingo beneficente da igreja católica às quartas. “Dona Maristela, a senhora não está apostando dinheiro real, então não é jogo de azar. É como jogar dominó ou paciência – um passatempo. Além disso, a senhora não está usando esses jogos para substituir as orações, está?” Ela nega veementemente, embora eu já tenha flagrado ela jogando durante a transmissão online do culto, com o celular escondido debaixo da Bíblia.
Hoje, seis meses depois do aniversário de vovó, a Vila Mimosa tem um novo ponto de encontro que substituiu até o tradicional bingo da igreja. Toda quinta-feira, a sala da casa de Dona Clotilde fica lotada de idosos, cada um com seu dispositivo, jogando caça-níqueis grátis enquanto compartilham bolo de fubá e fofocas do bairro. Vovó, agora conhecida carinhosamente como “A Rainha dos Caça-Níqueis”, criou um grupo no WhatsApp chamado “Jackpot da Melhor Idade”, que tem mais atividade que o grupo da família.
Como técnico de TI e neto orgulhoso, nunca imaginei que um simples aplicativo de caça-níqueis grátis transformaria minha avó em uma influenciadora digital local. Na semana passada, o Padre João, que inicialmente criticava o abandono do bingo da igreja, pediu ajuda para instalar os jogos no tablet que usa para ler o missal. “É só para eu entender o que está distraindo meus fiéis”, garantiu ele, mas já recebi três mensagens perguntando como desbloquear as rodadas bônus do Fortune Tiger.
Como diria Vovó Clotilde enquanto coleciona seus milhões em créditos fictícios: “Na vida real ou virtual, a maior riqueza é ter com quem compartilhar suas vitórias, mesmo quando elas não valem nem um real.” Filosofia que explica perfeitamente por que, mesmo sem ganhar nada tangível, todos voltam para mais uma rodada de caça-níqueis grátis toda quinta-feira, pontualmente às 15h, depois do café coado no pano e antes da novela das seis.