Meu nome é Felipe Mendonça, tenho 32 anos, e até 2022 eu era apenas mais um garçom desempregado com um diploma de gastronomia que servia apenas para equilibrar minha mesinha de centro torta no apartamento de 38m² que divido com meu gato Lenin (sim, um comunista de quatro patas que paradoxalmente odeia dividir ração). Foi então que meu primo Bruno – aquele tipo de parente que a família só menciona em cochichos durante o Natal – me ofereceu o que ele chamou de “oportunidade única no ramo de bebidas premium”. Tradução: virei bartender num cassino clandestino escondido no subsolo de uma antiga loja de discos em Copacabana.
E foi assim que, entre preparar caipirinhas de lichia para turistas argentinos e bloody marys para senhoras de sociedade que “só estavam ali para acompanhar o marido”, me tornei um especialista involuntário em caça-níqueis. Não por jogar neles – meu salário de R$ 2.850 mais gorjetas mal cobria meu aluguel e a ração premium que Lenin exige como se fosse um direito constitucional felino – mas por observar, noite após noite, a dança hipnótica entre humanos e máquinas que piscam.
Quando minha avó Conceição, 78 anos e devota fervorosa de Nossa Senhora Aparecida, me perguntou onde eu estava trabalhando, inventei que era bartender num “centro de entretenimento noturno”. Ela imediatamente assumiu que era uma boate de strip e começou a acender velas pela salvação da minha alma. Para esclarecer a situação (parcialmente), tentei explicar o que eram as caça-níqueis que ficavam no meu “respeitável local de trabalho”.
“Vó, caça-níqueis são tipo aquelas máquinas de prêmios do shopping, sabe? Aquelas que você coloca moeda e tenta pegar um pelúcia com uma garra?” Ela assentiu, lembrando das vezes que gastou meio salário mínimo tentando ganhar um urso de pelúcia para meu primo Bruno (irônico, não é?).
“Agora imagine que, em vez de tentar pegar um prêmio físico, a pessoa coloca dinheiro e aperta um botão. A máquina tem rolos com desenhos que giram – tipo frutas, números, símbolos – e se esses desenhos formam certas combinações quando param de girar, a pessoa ganha dinheiro de volta. Geralmente, muito mais do que ela colocou.”
Vovó Conceição franziu a testa. “Como a loteria?” perguntou, enquanto discretamente escondia um bilhete da Mega-Sena debaixo da toalha de crochê que ela mesma fez.
“Exatamente como a loteria, vó, só que com luzes piscando, sons de moedas caindo, e a sensação de que você está a um aperto de botão de nunca mais precisar trabalhar na vida.”
Ela pareceu entender. Tanto que na semana seguinte me pediu para levá-la ao meu trabalho. Recusei, obviamente. Explicar ao delegado Maurício (cliente VIP, mesa 7, sempre pede whisky com apenas uma pedra de gelo) por que trouxe minha avó octogenária para um cassino ilegal não estava nos meus planos de carreira.
Todo fim de mês, por volta das 4h30 da madrugada quando o movimento diminuía, Seu Ariovaldo, um senhor de uns 60 anos com aparência de quem sabe onde estão todos os corpos enterrados no Rio de Janeiro, aparecia para fazer manutenção nas máquinas. Secretamente chamado pelos funcionários de “Mago das Engrenagens”, ele tinha a missão de garantir que as 18 caça-níqueis do estabelecimento estivessem funcionando perfeitamente – o que, eu logo descobri, significava “garantir que os clientes ganhassem apenas o suficiente para continuarem jogando”.
Em troca de caipirinhas caprichadas e minha promessa de nunca revelar que ele tinha um pôster autografado do Roberto Carlos escondido na caixa de ferramentas, Seu Ariovaldo me explicou como essas máquinas realmente funcionam:
Durante os 14 meses que passei servindo drinques no “Cantinho da Fortuna” (nome que só aparecia nas notas fiscais falsas, já que o lugar não tinha nome oficial ou mesmo placa na porta), observei uma verdadeira crônica da relação dos brasileiros com os caça-níqueis.
Dona Mercedes, 62 anos, viúva de um diplomata e cliente frequente das terças e quintas, me contou entre doses de gin tônica que jogava desde os anos 80, quando os caça-níqueis eram encontrados em fundos de bares no Leblon. “Naquela época, meu filho, era tudo mecânico. Você ouvia o barulho real das moedas caindo. Hoje é tudo digital, com sons falsos. Mas a emoção… ah, a emoção continua a mesma.”
Em 1993, quando os bingos foram legalizados no Brasil, Dona Mercedes frequentava o famoso Bingo Royale em Ipanema. “Era uma época dourada”, ela suspirou com nostalgia, enquanto perdia R$700 em menos de meia hora na máquina “Cleópatra Milionária”. “Famílias inteiras iam juntas. Tinha até matinê de domingo, acredita? Depois veio a proibição em 2004, e tudo foi para a clandestinidade. Uma pena. Perder dinheiro com classe deveria ser um direito constitucional.”
A proibição a que Dona Mercedes se referia aconteceu após o escândalo da CPI dos Bingos. Desde então, os caça-níqueis físicos existem numa espécie de limbo no Brasil. O que não impediu o apetite nacional por esses jogos. Como evidência, posso citar o caso do Deputado ****** (nome omitido por motivos óbvios), que gastava em média R$15.000 por noite em máquinas, enquanto falava ao telefone sobre a importância da “família tradicional brasileira” e chamava o garçom de “meu constituinte”.
Em minha jornada no subsolo daquele prédio art déco em Copacabana, conheci uma variedade impressionante de caça-níqueis e uma variedade igualmente impressionante de pessoas dispostas a alimentá-los com dinheiro. Aqui está minha taxonomia não oficial:
Com o tempo, notei que alguns clientes habituais começaram a desaparecer. Inicialmente, imaginei cenários dignos de filmes de Scorsese, envolvendo concreto fresco e o porto do Rio. A realidade era menos cinematográfica: eles haviam descoberto os caça-níqueis online.
Júlio, um programador de 36 anos que costumava gastar suas noites de sexta na máquina “Fortuna do Dragão”, reapareceu após três meses de ausência. Enquanto pedia uma cerveja, explicou sua deserção: “Cara, descobri que posso jogar os mesmos jogos em casa, de cueca, com um pote de sorvete Häagen-Dazs do lado.” Quando perguntei se não sentia falta da atmosfera do cassino, ele riu: “Atmosfera? Você diz o cheiro de cigarro do Seu José misturado com o perfume excessivo da Dona Marlene, tudo isso ao som de um pagode dos anos 90 tocando baixo demais para reconhecer mas alto demais para ignorar? Não, não sinto.”
De Júlio e outros desertores, compilei as principais vantagens dos caça-níqueis online:
Esta era a pergunta favorita de Gustavo, engenheiro mecânico, toda vez que perdia mais de R$1.000. Minha resposta ensaiada: “Manipuladas não, programadas sim.” Então explicava que os caça-níqueis têm porcentagens de pagamento definidas pelo fabricante. É como um casamento: as regras estão claramente definidas desde o início, mas você ainda se surpreende quando perde tudo no final.
Pergunta recorrente de Fernando, vendedor de seguros que sempre vestia camisas havaianas mesmo no inverno. Minha resposta sincera: “Se houvesse um truque infalível, eu estaria jogando em vez de servindo caipirinhas para você às 2 da manhã.” A verdade é que os caça-níqueis modernos usam Geradores de Números Aleatórios (RNGs) que determinam o resultado assim que você aperta o botão. É tão imprevisível quanto o humor do meu gato Lenin quando trago uma marca diferente de ração.
A grande dúvida existencial de Mariana, psicóloga que analisava suas próprias decisões impulsivas enquanto fazia mais uma. Minha explicação: “Isso se chama ‘near miss’, ou quase-acerto, e é programado para criar a ilusão de que você está sempre a um passo da vitória.” É como aquele crush que sempre responde suas mensagens com entusiasmo, mas nunca está disponível para sair – está te mantendo interessado sem nunca entregar o jackpot.
Pergunta frequente de clientes novos, geralmente turistas ou pessoas que ainda não tinham processado completamente que estavam em um estabelecimento ilegal. Minha resposta diplomática: “No ambiente digital, existem várias plataformas online que operam em uma zona cinzenta da legislação. Fisicamente… bem, tecnicamente você não deveria estar jogando aqui, e eu tecnicamente não deveria estar servindo drinks neste estabelecimento que tecnicamente não existe. Mais uma caipirinha?”
A pergunta otimista de todo cliente ao entrar, especialmente Paulo, corretor da bolsa, que acreditava fervorosamente que podia identificar tendências em máquinas de caça-níqueis como identificava em ações. Minha resposta variava conforme meu humor, mas geralmente era algo como: “Aquela ali, a ‘Fortuna do Faraó’, não paga um jackpot há três semanas. Estatisticamente, está ‘devendo’.” Isso é completamente falso, claro – cada giro é independente do anterior – mas Paulo ganhou R$8.500 uma vez seguindo meu conselho aleatório e me deu R$500 de gorjeta. Depois disso, passei a responder essa pergunta com mais entusiasmo e criatividade.
Em abril de 2023, o “Cantinho da Fortuna” fechou suas portas abruptamente após uma “inspeção surpresa” (leia-se: um cliente insatisfeito tinha um primo na polícia). Encontrei trabalho legítimo em um bar na Lapa, onde as únicas máquinas são de cartão de crédito e espresso. Às vezes, quando um cliente particularmente difícil pede um drink complicado às 3 da manhã, me pego com saudades das máquinas piscantes e seus devotos jogadores – pelo menos eles culpavam sua má sorte, não meu moscow mule.
Quanto ao meu gato Lenin, ele continua o mesmo déspota exigente de sempre. A única diferença é que agora, quando jogo um jogo casual de caça-níqueis gratuito no celular antes de dormir, ele observa a tela com um interesse que só tinha demonstrado anteriormente por embalagens de atum. Talvez ele entenda mais sobre probabilidade do que deixa transparecer. Ou talvez esteja apenas calculando quanto tempo falta para sua próxima refeição – a verdadeira aposta que nunca perco.